01 junho 2017

À Mafalda, pelo seu 11º aniversário


Extrovertida e inquieta
Ela celebra cada dia
E hoje, primeiro de Junho,
Faz onze anos de alegria

Melómana e bailarina
Coreógrafa da ternura
Vive às mil rotações
Por minuto de aventura

Salta, brinca, cria, dança
Nada deixa por inventar
A minha filha, sempre criança,
Acende sorrisos com o olhar

Com gargalhadas contagiantes
Cativa todo o desconhecido
Os olhos azuis, mais que brilhantes,
Pintam o nosso mundo de colorido

À minha Mafalda querida
Ode ao amor, menina-furacão,
Desejo que tenha, sempre, na vida
Amigos, ternura e determinação.

25 abril 2017

O "Escrito a Quente" completa hoje dez anos

Este foi o primeiro texto que nele publiquei:

"Abril é o mês da liberdade. O mês que sempre associarei ao meu pai. O mundo ganhou, num Abril distante, um dos seres humanos mais críticos que por cá passaram e perdeu, também neste mês, sessenta e nove anos depois, um auto-didacta coerente, determinado e carismático, cuja maior preocupação foi transmitir-me valores importantes.
Este blogue nasceu agora, no dia 25 de Abril, porque a data me inspira e me liga àquele que pretendo, de certa forma, homenagear hoje: o meu pai.
Ouço a "Grândola vila morena" e emociono-me. Neste momento, um turbilhão de recordações traz-mo de volta e ele sugere-me como hei-de dar ao meu filho uma ideia do que foi o 25 de Abril.
Desde a minha infância que a palvra "liberdade" tem, para mim, um sentido tão emotivo quanto político, já que o meu pai me incutiu a liberdade não só como forma de viver, mas também como um direito que se conquista como indivíduo e se defende enquanto povo que por ela teve de lutar.
Para os meus filhos, terá o valor que eles lhe conferirem ao longo das suas vidas. Mas cedo começarei a explicar-lhes, de forma simples e clara, o que é ser livre e que o dia de hoje celebra a liberdade. Sem entrar na esfera política, que só compreenderão quando a idade for um pouco mais madura. Mas associando-lhe um cravo vermelho."


17 abril 2017

80 anos, já não comemoramos...

O meu pai foi um Homem com H maiúsculo. Criado por uma mãe sozinha, que trabalhava também fora de casa e cantarolava os seus fados favoritos. Essa avó que não conheci criou um filho que soube ser pai sem ter conhecido o seu próprio pai. Fez dele um homem que soube ser um exemplo de sageza.
Íntegro como poucos ousam ser (perdeu a oportunidade duma vida por não esconder a sua ideologia política), ensinou-me os melhores valores, que espero ir conseguindo honrar.
Não teve quem lhe amaciasse o caminho. Cedo largou a escola e começou a trabalhar, consertando guarda-chuvas.
Colmatou a falta de estudos com um forte temperamento auto-didacta. Leu muito, aprendeu sobre diversas áreas e ainda não era adulto quando começou a escrever críticas para os jornais. Nunca parou de ter um papel activo na sociedade e foi isso que me transmitiu.
Ensinou-me que, se é aos doze anos que a injustiça se me apresenta, é aos doze que eu devo encará-la e tratar de me bater por justiça. Sozinha, que tem muito mais impacto que com um adulto por trás. E foi com os meus meios que passei a enfrentar tudo.
Incentivou-me a ser a melhor (não posso dizer que o tenha conseguido, mas ficou a lição). A não desistir. A batalhar pelas minhas convicções e a saber questionar tudo quanto me quisessem fazer crer. A não esperar palmadinhas nas costas e a não demostrar fraquezas. Recusava-se a elogiar-me directamente, embora eu saiba que me elogiava quando falava com outros.
Sonhava viver numa biblioteca. O máximo que conseguiu foi reunir tantos livros em casa que a minha mãe receava que o escritório caísse sobre o vizinho. Resolvia as palavras cruzadas do jornal, sempre. Mesmo as que traziam as quadrículas pretas por preencher.
Deixou-me a tolerância, o brio e temeridade. Deixou-me, sobretudo, um orgulho indescritível por ter sido meu pai.
Hoje, faria 80 anos e eu não tenho espaço suficiente cá dentro para acomodar as saudades. Este dia seria bem melhor se, em vez dum vazio que as boas lembranças não chegam a colmatar, ele cá estivesse e pudéssemos comemora-lo em família.

Assim, tenho de me limitar a homenageá-lo como sei. Com palavras. Afinal, boa parte do legado que me deixou.

07 janeiro 2017


Há uma estirpe de homens em vias de raridade. São os coerentes e lutadores.
Mário soares era-o. Um homem que lutou pelos ideais em que acreditou, sabendo o quanto custaria defendê-los. Num mundo em que vão escasseando os que se dão ao trabalho de pensar, é sempre uma perda ver partir gente que vive por um código inalienável de valores, honrando-os e propagando-os.
Num universo onde cada vez mais cada um quer para si, há quem queira para todos. Que fazem por todos, para que todos usufruam dos direitos que alguns conquistaram.
Num tempo em que os humanos parecem uma espécie direcionada para a padronização, onde parece cair em desuso pensar-se por si e questionar-se a realidade, cada pessoa culta e tão plena de acção como de ideias que morre é uma perda geral.
Polémico? Sim. Mas gente polémica com conteúdo é que traz valor ao mundo.
Morreu um homem que ficará para a História. Um homem a quem devemos gratidão.
Que descanse em paz e em liberdade.

31 dezembro 2016

Fé em 2017

2016 foi um ano extraordinário.
Um ano de boas surpresas e de realizações inesperadas. Dele fica a confirmação, na prática, de que as vidas mudam. Para melhor, também.
Entre Janeiro e Dezembro, quase tudo aconteceu. O que não sucedeu, pode ainda vir a concretizar-se. Como diz a minha mãe, “temos de ter sempre alguma coisa para desejar”, e eu concordo.
2016 foi o ano em que a fé deu fruto. Não sabia o quanto tinha fé, até sentir que, quase como se fosse um filme, a minha vida se alterou. Primeiro foi o amor. Que tudo torna possível, como sabem. Depois, a viagem sonhada, que concretizei. Não sozinha, como cheguei a pensar, mas na companhia com que espero viver a ternura e a sensualidade dos quarenta. E das décadas que nos forem concedidas.
A família fica com um 2016 de boa memória, também. Não houve acidentes. O meu filho gozou a sua primeira aventura de férias fora, da família e do país. A minha filha deu a volta ao marcador, obtendo mais pontos que o irmão no aproveitamento escolar. Até a electricidade parece ter diminuído ligeiramente a voltagem, nestes filhos com energia que até queima… neurónios. A minha mãe recuperou a visão quase totalmente perdida.
Foi um ano de aprendizagem, adaptação e confiança. Um ano de mudança tamanha que até de casa mudámos. Agora, somos cinco: quatro humanos e uma cadela, imagine-se! Uma casa cheia. De amor e de livros. Pai, se nos vês, estás certamente contente. O teu sonho está aqui: vivemos numa (quase) biblioteca. As tuas palavras também estão aqui. No meu coração.

O futuro, desconheço. Ninguém sabe. Vou continuar a nutrir esta fé muito minha, algo recôndita e inexplicável. Acredito que o resto vem, aquela “qualquer coisa para desejar”. O que gostarei que aconteça, ao meu núcleo familiar e aos amigos e pessoas de bom coração. É com olhos de ver bonito que eu antevejo o nosso próximo ano. Que esta fé esteja convosco, é o que me apetece dizer, mesmo soando piroso.

15 dezembro 2016




Temos, algumas vezes, sonhos que não se cumprem.
Também deixamos de ter uns sonhos, enquanto ainda damos corda a outros.
Vamos ajustando os planos de acordo com as linhas entontecidas que a vida nos desenhou.
Vivemos o que nos toca. Tentando aperfeiçoar essa arte que é a vida. Criamos expectativas conforme vamos vislumbrando um pouco mais adiante o que ainda não é visível aos olhares alheios. E vivemos, por vezes, tão intensamente, que tudo é sonho e nem nos tínhamos apercebido. 
Serão os sonhos que vêm ao nosso encontro?

26 outubro 2016

Ao Vasco, no seu 14º aniversário


Tudo começou com um sonho, daqueles que se tem acordada. O meu sonho vem talvez desde os seis anos de idade. Ser mãe.
O Vasco foi a sua concretização e enriqueceu a minha vida desde o dia em que me soube grávida.
Há 14 anos, vi pela primeira vez o menino que me perturbou as noites, inchou pés e tornozelos durante a gestação e deixou sequelas passageiras dum parto difícil. Era lindo! 
Com o tempo, continuou lindo, tornou-se carinhoso, autónomo (até certo ponto…), alto, batuqueiro, distraído, atencioso e todas aquelas características que o tornam ele mesmo e me fazem amá-lo com esta ternura grandiosa que é a nossa.
Já me olha bem de cima, sabe o que pretende fazer no dia-a-dia e planeia o seu futuro. Cresceu e o rapaz que é permite-me acreditar que será um homem bom, equilibrado e que não levará a vida demasiado a sério. Que usará o seu próprio juízo, de forma justa e crítica. Que dará o melhor uso às suas capacidades. Que saberá dosear admiração e reclamação em doses equilibradas, assim que a adolescência o largar. E que manterá, da infância, a meiguice e o sonho. A poesia e a mímica inusitada e alegre. Esta vida prometedora que tanto me orgulha. 
Parabéns, meu querido filho!

27 setembro 2016



Há um monstro que é o da minha idade adulta. Não pertence ao universo que nos ensombra a infância, antes se impõe quando assistimos, por uma e outra vez, ao declínio dos que nos antecedem: é o monstro da degradação.

Uma dor que se aninha cá dentro e se alonga no tempo. Ver alguém perder a iniciativa, a força, os sentidos, a responsabilidade, a compostura. Assistir à insinuante estalactite da mente encortiçada, cada dia mais teimosa. Mais dependente.
Quem nos livra?

20 setembro 2016

Vida de cão


(imagem retirada da internet)

Andou por aqui durante toda a tarde.
Olhando para cima, reparando em cada pessoa que saía, não largou a entrada do prédio onde vivemos.
Tinha olhos de meiguice castanha clara, perscrutava cada esquina, cada movimento, todos os abrires e fechares de porta. De início, ainda pensei que se tinha tomado de simpatia por nós. A ideia agradou-me, como me cativara há meses a ternura dum gato que nos chamava para se rebolar entre carinhos. Depois, caí na realidade e apercebi-me que esta era mais dura. O cão estava de sentinela, convicto de esperar alguém. Fiel à última imagem de alguém que o deixou para trás? Romântico, perseguindo a sua amada? Perdido e confuso acerca do edifício onde procurar o dono?
Por aqui andou, sempre de olho na entrada do prédio. Não trazia número de contacto na coleira. Afastou-se quando tentei fotografá-lo.
De esperança e ternura se fez a sua tarde.
Tomara que a ternura e a esperança sejam recompensadas, nesta vida de cão.

06 setembro 2016

Cartas de Guerra (no grande ecrã)



Encantar-me com um filme após ter lido o livro que esteve na sua base não é coisa que costume acontecer-me.
Aconteceu agora. Com um filme de guerra. Uma poesia servida na grande tela. Pintada em tons de preto e branco, fazendo-nos viajar na cronologia e na latitude.
Impossível não me emocionar com o amor em tempo de guerra daquele enredo que enredou a actriz Margarida Vila Nova enquanto lia para a barriga. O livro já me fizera pele de galinha em certos capítulos. As interpretações e a fotografia deste filme complementaram-no. Seguiram-lhe o compasso. Um compasso lento, como lentíssimo era o tempo de quem foi arrancado ao amor recente, à vida em semente, para ter de participar num conflito longínquo e por lá ficar durante anos. Fieis ao sentir do protagonista, o ritmo e o tom da história. Um Ivo Ferreira ao nível dum António Lobo Antunes: crítico, sensível, cru, apaixonado. Como só alguns homens das artes sabem ser.
Um filme que aconselho, aos que gostam de  pensar. E sentir.

01 setembro 2016

Mais um sonho realizado (II)

Berlenga


Praia deserta


Farol de S. João Baptista


Fortaleza


O que nós descemos para aqui chegar!


A maré estava vaza


 Ao sairmos do forte, já a maré enchera




25 agosto 2016

Mais um sonho realizado (I)

A noite foi brava. Uma trovoada que nos acordou, 
chuva inesperada para uma época quente de Agosto.


O dia acordou sem cor, a temperatura baixara drasticamente e o ambiente, a lembrar o Inverno, fez-nos duvidar se seria o momento para concretizar o sonho de ir conhecer a Berlenga.
Mantivemos o plano e pusemo-nos a caminho.
Estava bravo, o mar. O vento mandava na embarcação, que avançava como que embriagada.


À partida, foram distribuídos saquinhos para o enjoo. Alguns dos
 passageiros acabaram por lhes dar uso. 
Os lugares não foram todos ocupados; calculo que o dia não terá parecido convidativo a muita gente.


 Ao atracar, ninguém pareceu, contudo, ligar ao clima. 
A curiosidade era maior e o facto de estar menos calor podia jogar a nosso favor.


 Estranhámos ver tantos barcos mesmo junto da única praia da ilha. 
Lamentámos o odor a combustível.


 Depois, fomos à descoberta.



 A ilha é reserva natural, pelo que gaivotas, cagarras, albatrozes e outras aves são quem manda.
E sentem-se seguras entre os humanos; andam por entre as pessoas como se fossem cães.


A transparência da água do mar convida-nos.
A sua temperatura, nem tanto...

16 agosto 2016

Foi há três anos


Era a mais carismática das filhas do Sr Champlon.
Deixou-nos faz hoje três anos, mas gozou oitenta e um duma vida cheia.
A audácia que a fazia levar cobras de rio para casa na infância, fê-la, já adulta, percorrer o mundo sem falar qualquer idioma estrangeiro. A determinação que a levou por terras recônditas dum Portugal estagnado para ensinar as artes das linhas com que as senhoras cosiam, foi a mesma que lhe serviu de trincheira no combate contra uma doença que ameaçava levá-la em curtos meses. 
A nossa proximidade era inversa à diferença etária. Tínhamos uma cumplicidade que raras tias e sobrinhas terão. Não deixámos nada por viver, fizemos tudo quanto podíamos, juntas: viajámos, desabafámos, rimos, chorámos, pregámos partidas, desentendemo-nos, planeámos, concretizámos. A nossa verdade era crua; o carinho, espontâneo.
Podemos não ter sido as melhores tia e sobrinha do mundo. Fomos o melhor que soubemos.
Não venham dizer que está em cada boa memória; eu sei que está. Mas às vezes, lamento não a ouvir gargalhar, nunca mais.




07 agosto 2016

Férias


Tudo começou com uma tempestade encenada. Muita gente, o madeirame do palco tonitroante, num azul inquieto. A história parecendo realidade. O teatro que me entrou no sangue numa disciplina dos tempos de liceu.
Depois, o improviso levou-nos por estradas onde o Sol parecia derreter qualquer tipo de vida. Árvores prometendo sombras que logo o avançar da viagem dissipava. Vilas sucedendo-se num desfile de vaidades justificadas. O adivinhar de tanto que está por descobrir, num país que tem diversidade paisagística na razão inversa da sua dimensão reduzida.
O deslumbre pintado de verde e esculpido em xisto. A realidade imitando os cenários.
Um reencontro onde a conversa tenta condensar o que a distância ocultou. Vilas históricas onde nos imaginamos medievais, sentimos outros tempos sob a pele, reacendendo memórias que não vivemos, batalhas que outros travaram para hoje sejamos o que somos.
O cansaço acumulando-se, a sede acompanhada das chamas que, bem próximas, consumiam o arvoredo da montanha sagrada. Ali, o combate era outro; a paisagem trocara o belo pelo inferno. Que a vida também tem disto: a devastação no mais lindo quadro. O lamento em dias de harmonia extrema.
De quilómetros e de belezas se fazem os momentos que sobrepõem as nossas vidas. Consolidamos afecto e memórias. Para que, mesmo nos dias sem história ou nas horas de perda, o espanto de existir volte a lembrar-nos quem somos. E o muito que vivemos.

01 junho 2016

À Mafalda, no seu 10º aniversário



Extrovertida e inquieta Ela celebra cada dia E hoje, primeiro de Junho, Faz dez anos de alegria Melómana e bailarina Coreógrafa da ternura Vive às mil rotações Por minuto de aventura Salta, brinca, cria, dança Nada deixa por inventar A minha filha, sempre criança, Acende sorrisos com o olhar Com gargalhadas contagiantes Cativa todo o desconhecido Os olhos azuis, mais que brilhantes, Pintam o nosso mundo de colorido À minha Mafalda querida Ode ao amor, menina-furacão, Desejo que tenha, sempre, na vida Amigos, ternura e determinação.

09 maio 2016


Um dia, chega a notícia. Aquela pessoa com quem convivemos poucos, mas marcantes dias, e com promessa de mais, partiu. Já não sofre. 
Fica um vazio naqueles períodos incertos do calendário, onde julgávamos que nos reencontraríamos. Fica a sensação de amizade interrompida. O lamento pela partida de quem parecia que faria parte das nossas vidas dali em diante.
As mortes parecem nunca ser esperadas. Mesmo na doença. Mesmo quando tentámos preparar-nos.
Na semana passada, foram duas. Uma do pai duma amiga e esta, duma amiga a 300 quilómetros. Sempre o mesmo legado: isto é tudo a correr. Crescemos, esforçamo-nos a estudar e a trabalhar para termos filhos que crescem a correr. Acarinhamos a correr, sonhamos pouco, fazemos a nossa parte pelos sonhos e perdemos âncoras. Âncoras emocionais. Tudo a correr. Talvez só o sofrimento não corra.
Vivamos. Como aqueles que se casaram pela terceira vez. Como aqueles que hoje completam mais um ano de existência. Como os que agarram o sonho pela coroa e se coroam imperadores do agora, senhores da alegria de estar cá. Legisladores do sorriso. Reis do amor.

21 abril 2016

Pai


Chamava-me Filoxera
O Porto o viu nascer
A ordem dos factos é outra
Mas por esta o quero dizer

Lembro o meu pai-herói
Faz dez anos que partiu
Abalara já na garupa
Da memória que lhe fugiu

Era Rui e era Barros
Não jogava futebol
Com uma lupa acendia
Cigarros expostos ao sol

Fez teatro n’Os Modestos
Na juventude do tempo
Escreveu para os jornais
Leitor crítico e atento

                            Homem sempre de Abril                            
Desde o berço até à morte
Votou, amou e viveu
Do lado esquerdo da sorte

Dançou quando eu nasci
Q’ um homem também dança
Se contido, mas babado
Ao nascer-lhe uma criança
  
Chorava as dores alheias
Vivia de punho erguido
Dizia que o povo unido
Jamais seria vencido

Apontava-me os beirais
Na primavera, exultante
Saudando as andorinhas
No regresso triunfante

Ensinou-me a perseverança
A rectidão e a coragem
Mostrou-me, desde criança,
Como viver esta viagem.

14 abril 2016


Tudo começou com uma batuta que ganhou vida e saltou da mão do maestro. Estávamos no penúltimo andamento do concerto.
Uma risota. Conseguiste não a apanhar em pleno voo. De outra forma, teria sido o fim do espectáculo. Um riso incontido ecoando por toda a sala. Maestro e músicos descompassados, a confusão reinante.
Sonos de não dormir, até tarde. O almoço lanchado. Gente nómada com cadela atrelada. Miúdos eléctricos de fritar cérebros.
A cozinha no centro das operações e tanto que rir, tanto que falar. Refeições inquietas, o serão vagueando por Marte. A lembrar aquele jantar, quando a criança arrota e a mãe pergunta: “O que é que se diz?”, sendo a resposta pronta: “Arrotei!”.
Filmes e mais cinema, das pipocas ao pecado da não gula.
O dia a terminar com a cadela a correr, e o dono em sentido contrário. Perdidos de riso, misturam-se polares. Serão ursos? Serão roupas? Roupas não são, certamente. E os ursos não riem assim.

(só para dizer que o humor faz sentido para quem detém o código).

21 março 2016

No Dia Mundial da Poesia



O meu poema

O meu poema
Esconde rios de lágrimas vertidas
Nas searas da nocturna desilusão
Regando antigas mágoas, renascidas
Em madrugadas prenhes de solidão.

O meu poema
São as dores duma nova sepultura,
Cavada com braços firmes, feitos pranto,
Onde enterro os despojos da ternura
E acolho nova era de desencanto.

Mas…

O meu poema
Espelha todas as estrelas que no céu brilham,
A luz que permite um novo dia,
As brincadeiras infantis que se partilham,
Os arco-íris que dão ouro à alquimia.

O meu poema
Guarda as sementes de todas as esperanças,
A chuva batendo, de mansinho,
As cantilenas sorridentes das crianças
Em campos de alfazema e rosmaninho.

O meu poema
Revela um corpo aberto às sementeiras,
Dunas agrestes onde aportam gaivotas,
Estrelas cadentes e terras sem fronteiras,
Mapas velhos, contendo novas rotas.

O meu poema
É o cabo das tormentas já dobrado,
É a arte, o sonho, a força e a glória,
A boa esperança de te ter sempre a meu lado,
O brinde à conquista da nossa história.



08 março 2016

No dia da mulher. Que é, como todos, também dia do homem



No dia da mulher…
Não me dês palavras. Rouba-me uma dança.
Não me elogies. Faz com que eu me aperceba que me admiras.
Não me desejes um dia feliz. Sê feliz comigo.
Não me perguntes pelos filhos. Sussurra-me mundos não sonhados.
Não me leves jantar. Dá-me à boca a gula partilhada.
Não tomemos um copo num bar. Faz do meu umbigo a tua taça.
Não me fales do mundo. Inventa comigo um universo nosso.
Não me ofereças um perfume. Tatua o teu aroma em mim.
Não me presenteies com nada de material. Só te quero a pele.
Não esperes que te responda. Cala-me com um beijo quente.

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